Keeta acusa 99Food de criar duopólio no mercado de delivery brasileiro

 

Keeta acusa 99Food de criar duopólio no mercado de delivery brasileiro

A disputa pelo mercado de entrega de refeições no Brasil ganhou um novo capítulo nesta quinta-feira (14), quando a Keeta, braço internacional da chinesa Meituan, anunciou que ingressou com uma ação judicial contra a 99Food. A empresa, que pretende iniciar suas operações no país em novembro, acusa a concorrente de impor cláusulas contratuais restritivas a restaurantes parceiros, o que configuraria prática anticoncorrencial.

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Segundo a Keeta, a 99Food, controlada pela também chinesa DiDi, estaria oferecendo pagamentos antecipados vultosos para que restaurantes firmem contratos que proíbam a atuação da nova concorrente.

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Ação judicial e acusações

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Imagem: Keeta / Divulgação

A ação foi protocolada no Foro Central de São Paulo. No documento, a Keeta afirma que as “cláusulas de bloqueio” oferecidas pela 99Food a restaurantes estratégicos não têm justificativa econômica legítima e visam excluir a nova entrante do mercado.

Valores e negociações

De acordo com a Keeta, a 99Food já teria abordado mais de 100 estabelecimentos, oferecendo até R$ 900 milhões em pagamentos antecipados para garantir que estes não operem com a plataforma da Meituan.

A acusação ainda aponta que, apesar de a 99Food anunciar investimentos de R$ 1 bilhão no Brasil em 2025, sendo R$ 500 milhões somente em São Paulo, parte desse valor estaria sendo destinado a firmar contratos de exclusividade com objetivo de impedir a entrada de novos competidores.


Citação ao iFood e suposto duopólio

O texto divulgado pela Keeta também menciona o iFood, maior player do setor no Brasil, alegando que as práticas da 99Food têm como alvo específico a empresa chinesa e que estariam contribuindo para a formação de um duopólio.

“São abusivas e anticoncorrenciais, e tentam fechar o mercado para apenas dois concorrentes, limitando a escolha do consumidor e minando os princípios de um mercado livre e justo”, diz o comunicado.

O iFood declarou que não vai comentar o caso.


Resposta da 99Food

Durante o lançamento de sua operação em São Paulo, em 12 de agosto, o diretor-geral da 99, Simeng Wang, afirmou que a estratégia da empresa não é “roubar market share” de concorrentes, mas sim ampliar o mercado de delivery.

Bruno Rossini, diretor sênior de comunicação da 99Food, confirmou que há contratos de exclusividade em São Paulo e Goiânia, mas negou que a prática seja ilegal.

Segundo ele, trata-se de um mecanismo para “proteger o espaço dentro do mercado”, limitado a um número específico de restaurantes considerados estratégicos, com contratos de dois a três anos.

A empresa não se pronunciou oficialmente após a nota divulgada pela Keeta.


Contexto internacional e histórico no Brasil

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Imagem: Divulgação / 99Food

A Meituan, controladora da Keeta, já foi multada na China por práticas semelhantes, tendo pago cerca de R$ 2,5 bilhões, o equivalente a 3% de sua receita anual, após investigação por condutas anticoncorrenciais.

No Brasil, o histórico não é diferente. Em 2020, o Rappi denunciou o iFood ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) por abuso de exclusividade com restaurantes. Em 2023, o iFood firmou um acordo com o órgão, que estabeleceu limites para essa prática.

Regras do acordo com o Cade

  • Exclusividade limitada a no máximo 25% do volume de vendas;
  • Proibição de exclusividade com marcas que possuam 30 ou mais unidades;
  • Contratos com duração máxima de 2 anos.

Investimentos e guerra do delivery

O mercado brasileiro de delivery se transformou em um campo de batalhas bilionárias.

  • Meituan/Keeta: previsão de investir R$ 5,6 bilhões no Brasil.
  • 99Food: investimento de R$ 1 bilhão em 2025, com R$ 500 milhões destinados a São Paulo.
  • iFood: R$ 17 bilhões no ano fiscal atual.
  • Rappi: R$ 1,4 bilhão para ampliar sua atuação no país.

Esse cenário cria um ambiente altamente competitivo, mas também levanta questões sobre práticas de mercado que possam prejudicar a concorrência e a diversidade de opções para consumidores e restaurantes.


Possíveis desdobramentos

Especialistas em direito concorrencial avaliam que, se comprovadas as alegações da Keeta, a 99Food pode enfrentar investigação do Cade, o que poderia resultar em multas pesadas e imposição de limites para seus contratos de exclusividade.

A ação judicial pode, inclusive, acelerar a discussão sobre a necessidade de regras mais rígidas para práticas comerciais no setor de delivery, que hoje é dominado por poucas empresas.

Imagem: VCG/VCG via Getty Image

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