App chinês acusa 99 de impedir entrada no Brasil

 

App chinês acusa 99 de impedir entrada no Brasil

A disputa pelo mercado de delivery no Brasil ganhou um novo capítulo em agosto de 2025.

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A Keeta, aplicativo chinês de entregas pertencente ao gigante asiático Meituan, acusa formalmente a 99Food — controlada pela também chinesa DiDi Chuxing — de práticas anticompetitivas que estariam dificultando sua entrada no país.

De acordo com a Keeta, a 99 implementou cláusulas de exclusividade em contratos com restaurantes parceiros estratégicos, visando impedir que a nova concorrente possa se estabelecer no mercado nacional.

A acusação foi revelada em nota oficial encaminhada ao portal Canaltech e já está gerando repercussões jurídicas e políticas.

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Entenda a disputa entre Keeta e 99Food

Quem é a Keeta?

A Keeta é uma plataforma de delivery de alimentos da Meituan, uma das maiores empresas do setor no mundo. Avaliada em cerca de R$ 600 bilhões, a Meituan tem operações bem-sucedidas na China, Arábia Saudita e outros mercados emergentes.

Em maio de 2025, a empresa anunciou que investiria aproximadamente R$ 5,6 bilhões para iniciar operações no Brasil, durante um evento em Pequim que contou com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O objetivo da Keeta é competir diretamente com plataformas já estabelecidas como iFood, aiqfome e a própria 99Food, oferecendo uma alternativa com diferenciais agressivos, como cupons generosos, cashback e até entregas por drone em algumas localidades.

O que a Keeta alega?

Segundo a nota divulgada pela empresa, a 99Food teria assinado contratos com cláusulas de bloqueio que impedem restaurantes estratégicos de firmarem parceria com a Keeta.

A Meituan classifica essa prática como um “mecanismo direcionado de exclusão de mercado”, argumentando que ela viola os princípios de livre concorrência e prejudica o consumidor brasileiro.

Além disso, a Keeta afirma que a 99 investiu pelo menos R$ 900 milhões em pagamentos antecipados a restaurantes para garantir a assinatura desses contratos. Esse valor representa 90% do investimento de R$ 1 bilhão que a DiDi anunciou para reestruturar a operação de delivery da 99 no Brasil.

As cláusulas de bloqueio e o impacto no mercado

Como funcionam essas cláusulas?

As cláusulas citadas pela Keeta consistem em termos contratuais que condicionam os pagamentos e parcerias da 99Food com restaurantes à exclusividade de operação.

Isso significa que os estabelecimentos que aceitarem os benefícios da 99, como pagamentos antecipados, ficam proibidos de firmar qualquer tipo de vínculo com a Keeta.

O mais controverso, segundo a Meituan, é que essas cláusulas não se aplicam ao iFood, principal concorrente da 99.

Ou seja, a exclusão teria sido construída exclusivamente para impedir a entrada da Keeta no mercado brasileiro, um indício claro de comportamento anticompetitivo, conforme argumenta a companhia chinesa.

Especialistas apontam possível infração à legislação brasileira

Juristas e especialistas em direito concorrencial consultados por veículos do setor apontam que, se confirmadas, as cláusulas violam a Lei de Defesa da Concorrência (Lei nº 12.529/2011).

Tais práticas podem ser caracterizadas como abuso de posição dominante e restrição injustificada ao acesso ao mercado.

O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) ainda não se manifestou oficialmente sobre o caso, mas fontes do setor indicam que o órgão pode abrir investigação, principalmente diante da magnitude dos investimentos envolvidos.

99Food não comenta, mas mercado observa atentamente

Silêncio da 99 pode ser estratégico

Até o momento, a 99Food não emitiu qualquer declaração pública sobre as acusações. A empresa está relançando seu serviço de delivery no Brasil após um período de reestruturação e busca reconquistar espaço frente ao iFood, que domina amplamente o setor com cerca de 80% de market share.

Analistas acreditam que o silêncio da empresa seja uma estratégia para ganhar tempo enquanto avalia possíveis repercussões jurídicas. No entanto, o caso já se tornou público e deve acelerar o debate sobre práticas concorrenciais no setor de tecnologia e delivery.

Mercado brasileiro de delivery é altamente competitivo

O Brasil é um dos maiores mercados de delivery da América Latina, com milhões de usuários ativos e uma intensa guerra de promoções entre os aplicativos. O iFood lidera com ampla vantagem, mas a entrada da Keeta e a retomada da 99Food aumentam a pressão competitiva.

Especialistas apontam que um ambiente competitivo saudável depende da entrada de novos players. Caso as alegações da Keeta sejam comprovadas, a 99 pode ser responsabilizada por dificultar o dinamismo do setor.

Keeta aposta em tecnologia e preço para atrair usuários

Entregas com drones e cashback como diferenciais

A Keeta busca se diferenciar com uma estratégia de alto investimento em tecnologia. Em cidades selecionadas, a empresa pretende usar drones para realizar entregas rápidas, diminuindo custos logísticos e oferecendo prazos menores de entrega.

Outro atrativo é a política de cashback: se o pedido atrasar, o cliente recebe de volta parte do valor pago. Esse modelo já é utilizado com sucesso na China e em países do Oriente Médio, onde a empresa conquistou uma base fiel de consumidores.

Promoções agressivas marcam lançamento da Keeta

A empresa também deve lançar no Brasil com forte apelo promocional. A expectativa é de distribuição de cupons de desconto, taxas reduzidas para restaurantes parceiros e campanhas publicitárias massivas nas redes sociais e aplicativos de mobilidade.

O que pode acontecer a seguir?

99food
Imagem: Canva

Caminho jurídico e resposta das autoridades

A Meituan afirma que buscará judicialmente a suspensão das cláusulas de exclusão firmadas pela 99 com os restaurantes. Caso a ação avance, a Justiça brasileira poderá impor medidas cautelares à 99, incluindo multas e a suspensão imediata dos contratos com restrições.

O Cade, por sua vez, pode abrir investigação própria, o que colocaria o caso sob escrutínio público e poderia resultar em sanções mais severas, caso seja confirmada a prática anticompetitiva.

Possível impacto na relação Brasil-China

A disputa entre duas gigantes chinesas no território brasileiro também chama a atenção pelas implicações diplomáticas.

A Meituan recebeu apoio explícito do governo chinês para sua expansão na América Latina, e o caso pode gerar ruídos entre empresas com forte capital chinês competindo em solo estrangeiro.

Considerações finais

A entrada da Keeta no Brasil promete transformar o mercado de delivery, mas já enfrenta barreiras antes mesmo de iniciar oficialmente suas operações.

As acusações contra a 99Food levantam preocupações sobre práticas anticompetitivas e reforçam a necessidade de fiscalização atenta de órgãos reguladores como o Cade.

Se confirmadas as alegações, o caso pode se tornar um precedente importante para o setor de tecnologia no país, mostrando que nem mesmo os grandes players estão acima das leis de concorrência.

Para os consumidores, a disputa pode, paradoxalmente, resultar em mais opções, preços melhores e inovação tecnológica — desde que o ambiente de mercado seja justo e aberto.

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