Banco Central registra retirada de R$ 6,25 bilhões da poupança em julho
O mês de julho reforçou a tendência que vem sendo observada ao longo de 2025: os saques nas cadernetas de poupança voltaram a superar os depósitos, desta vez em R$ 6,25 bilhões, segundo dados divulgados pelo Banco Central (BC). O movimento, que já se tornou padrão no ano, chama a atenção pela constância com que os brasileiros estão retirando recursos desse tipo de aplicação, historicamente conhecida por sua segurança e liquidez.
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Com saques totais de R$ 369,82 bilhões e depósitos somando R$ 363,57 bilhões, a diferença negativa sinaliza um comportamento financeiro motivado por múltiplos fatores, especialmente o impacto da alta da taxa básica de juros (Selic), que segue em 15% ao ano.
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Contexto de julho e comparação com o mês anterior
De superávit a déficit em 30 dias
O cenário de julho contrasta com o observado em junho de 2025, quando os depósitos superaram os saques em R$ 2,12 bilhões. A inversão de tendência de um mês para o outro indica que o movimento de retirada, embora tenha dado sinais de desaceleração no mês anterior, ainda se mantém como traço dominante do comportamento do poupador brasileiro em 2025.
Rendimentos pagos não contêm saldo negativo
Mesmo com a remuneração das cadernetas de poupança tendo somado R$ 6,47 bilhões em julho, esse rendimento não foi suficiente para reverter a tendência de saques líquidos. O saldo global das aplicações, porém, se manteve robusto, com mais de R$ 1 trilhão sob gestão.
Desempenho acumulado da poupança em 2025
Saída líquida já soma R$ 55,9 bilhões no ano
No acumulado entre janeiro e julho de 2025, o volume de saques já superou os depósitos em R$ 55,9 bilhões, mantendo a caderneta em trajetória de captação negativa. O dado, embora expressivo, representa uma melhora relativa quando comparado ao mesmo período de 2023, quando a saída líquida já atingia R$ 87,8 bilhões.
Essa redução no ritmo de saques aponta para uma possível recomposição parcial da confiança ou mudança de comportamento diante das incertezas econômicas, mesmo que a poupança continue perdendo recursos mês após mês.
Comparativo histórico: tendência de fuga persiste, mas desacelera
Um recuo gradual após perdas recordes
Para compreender melhor o cenário atual, é preciso considerar os desempenhos de anos anteriores:
- 2020: Captação líquida positiva de R$ 166 bilhões (impulsionada por auxílios emergenciais e incertezas da pandemia)
- 2021: Saída líquida de R$ 35,4 bilhões
- 2022: Captação negativa persistente
- 2023: Recorde de retirada líquida com R$ 87,8 bilhões
- 2024: Saída líquida de R$ 15,4 bilhões
- 2025 (até julho): Saques líquidos de R$ 55,9 bilhões
Esses números refletem uma curva de comportamento que está diretamente relacionada às condições macroeconômicas e à atratividade da poupança frente a outras aplicações financeiras.
A influência da taxa Selic no rendimento da poupança

Como a Selic define a remuneração da caderneta
A remuneração da poupança varia conforme o nível da taxa básica de juros (Selic). Atualmente em 15% ao ano, a Selic ativa o modelo de rentabilidade tradicional, definido da seguinte forma:
- Quando a Selic está acima de 8,5% ao ano: a remuneração da poupança é de 0,5% ao mês (ou cerca de 6,17% ao ano), acrescida da Taxa Referencial (TR).
- Quando a Selic está igual ou abaixo de 8,5% ao ano: a regra muda para 70% da Selic + TR.
Com a taxa nos patamares atuais, a poupança perde competitividade em relação a outros investimentos de renda fixa que acompanham diretamente a Selic, como o Tesouro Selic, CDBs de bancos médios e LCIs/LCAs isentas de IR.
Perfil do investidor e busca por rentabilidade
Poupança deixa de ser a “preferida” do brasileiro?
Por muitos anos, a poupança foi a escolha majoritária entre os brasileiros pela sua simplicidade, liquidez e isenção de Imposto de Renda. Contudo, nos últimos anos, o cenário mudou:
- Investidores estão mais atentos ao retorno real (descontada a inflação)
- Plataformas digitais facilitaram o acesso a investimentos mais sofisticados
- A educação financeira se expandiu com o avanço da tecnologia e das redes sociais
Mesmo assim, a poupança ainda detém mais de R$ 1 trilhão em depósitos, demonstrando que, apesar da perda de rentabilidade, ainda cumpre um papel central para milhões de brasileiros, especialmente os de menor renda ou menos familiarizados com o mercado financeiro.
Impactos econômicos e implicações para o sistema financeiro
Efeitos nas instituições bancárias
Para os bancos, a fuga da poupança tem implicações diretas na disponibilidade de recursos para financiamentos imobiliários, uma vez que parte do funding do crédito habitacional vem justamente da poupança.
Caso a tendência de saques se mantenha, instituições financeiras podem:
- Reduzir a concessão de crédito para compra de imóveis
- Buscar alternativas de funding mais caras
- Ajustar políticas de captação para reconquistar o investidor
O que esperar para os próximos meses?
Perspectivas dependem da Selic e da inflação
Com a Selic mantida em patamar elevado, a expectativa é que a saída líquida da poupança continue, ainda que em ritmo menos acelerado. Caso o Banco Central sinalize cortes na taxa básica, isso poderá afetar a rentabilidade da poupança e torná-la novamente mais atrativa para parte dos investidores.
Além disso, a inflação controlada pode levar alguns poupadores a retomar os depósitos, principalmente aqueles mais conservadores.
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