O transporte por app se tornou um dos principais vilões da inflação brasileira no último ano. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o preço das corridas por aplicativos como Uber, 99 e InDrive aumentou 44,5% nos últimos 12 meses — o segundo maior aumento entre os 377 itens que compõem o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). À frente, apenas o café, com alta de 77,88%.
Essa elevação chama atenção não apenas pela magnitude, mas também por ocorrer em um contexto de relativa estabilidade dos combustíveis, tradicionalmente vistos como os principais fatores que influenciam o custo do transporte. Nos últimos 12 meses, os combustíveis subiram apenas 6,92%, praticamente seis vezes menos que as corridas por app.
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A disparidade entre o valor pago pelo passageiro e o repasse ao motorista

Embora os usuários sintam no bolso o aumento do preço das viagens, os motoristas relatam que não estão sendo beneficiados por esse encarecimento. Muito pelo contrário: eles denunciam que as plataformas estão ampliando suas taxas de desconto e reduzindo o valor pago por quilômetro rodado.
“Que aumentou a corrida para o passageiro eu já sabia, porque os passageiros comentam. Mas, ao mesmo tempo que a Uber aumentou a corrida, ela também aumentou sua taxa de desconto ao motorista”, relatou Eduardo Lima de Souza, o Duda, presidente da Associação de Motoristas de Aplicativo de São Paulo (Amasp).
Segundo Duda, há casos em que a plataforma recebe quase o mesmo valor do motorista. “Um passageiro comentou que pagaria R$ 94 pela viagem. Eu recebi R$ 54”, contou.
A realidade é parecida em outras regiões. Em Porto Alegre, por exemplo, o transporte por aplicativo subiu 42,5% só no primeiro semestre de 2025, de acordo com o IBGE. Nesse mesmo período, a gasolina teve variação de apenas 0,67%.
Aumento é generalizado em diversas capitais
Os dados do IBGE revelam que o aumento dos preços das corridas se distribui de forma desigual pelo país. Veja algumas capitais:
- Brasília: alta de 62,1% no acumulado de 12 meses
- São Paulo: aumento de 55%
- Recife: crescimento de 54%
- Porto Alegre: variação de 50%
Segundo o instituto, os picos de reajuste ocorreram em dezembro de 2024 (20,7%) e junho de 2025 (13,77%).
Motoristas relatam desvalorização crescente
Carina Trindade, presidenta do Sindicato dos Motoristas Particulares por Aplicativos do Rio Grande do Sul (Simtrapli-RS), trabalha no setor há oito anos e afirma que o modelo atual é insustentável.
“No início, a empresa ficava com 25% do valor da corrida. Hoje, a taxa varia de 40% a 70%. Nunca tivemos um aumento real. Antes eu recebia R$ 1,80 por quilômetro; hoje, recebo R$ 1,20 ou até R$ 1”, denuncia.
Ela aponta ainda que, com o aumento do custo de vida e a estagnação dos repasses, muitos motoristas abandonaram a atividade ou passaram a trabalhar em excesso para manter o rendimento mensal.
Setor cresceu, mas renda caiu
De acordo com a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), o número de motoristas ativos nas plataformas chegou a 1,7 milhão em junho de 2025 — um aumento de 35% em relação ao ano anterior. Apesar disso, os trabalhadores relatam que o crescimento da concorrência tem pressionado os ganhos para baixo, principalmente devido à liberdade das plataformas em ajustar tarifas e comissões.
Regulamentação está parada no Congresso

Em 2024, o governo federal encaminhou ao Congresso Nacional um projeto de lei para regulamentar o trabalho por aplicativos. Motoristas sugeriram uma emenda que limitaria a comissão das plataformas a 25% do valor das corridas. No entanto, o projeto está paralisado há cerca de um ano na Câmara dos Deputados.
A proposta chegou a entrar na pauta da Comissão de Indústria, Comércio e Serviços (CICS), mas foi retirada após acordos entre parlamentares. A indefinição mantém os trabalhadores sem garantias legais, à mercê das políticas internas das empresas.
Posicionamento das plataformas
O Brasil de Fato procurou a Uber, a 99 e a InDrive, mas nenhuma das empresas quis comentar diretamente o aumento dos preços. A Uber encaminhou o pedido de resposta à Amobitec, que representa o setor.
Em nota, a associação disse que os preços das viagens “são influenciados por fatores como tempo e distância dos deslocamentos, categoria do veículo, nível de demanda e estratégias comerciais específicas de cada plataforma”.
Sobre os ganhos dos motoristas, afirmou que as empresas “buscam equilibrar as demandas dos motoristas com a situação econômica dos usuários”.
A Amobitec ainda questionou a metodologia usada pelo IBGE para calcular os preços, afirmando desconhecê-la. O instituto respondeu que utiliza web scraping — coleta automática de dados pela internet — para medir os valores e que esse método garante maior precisão e volume de dados.
Caminhos para o futuro
A disparidade entre o preço pago pelo passageiro e o valor recebido pelo motorista, em meio ao aumento expressivo do custo das corridas, acende o alerta sobre a sustentabilidade do atual modelo de transporte por aplicativo no Brasil.
Sem regulamentação efetiva e com a concentração de mercado nas mãos de poucas plataformas, o cenário permanece desbalanceado, penalizando tanto os usuários quanto os profissionais. O crescimento da categoria, embora numérico, ocorre à custa da precarização do trabalho e do aumento da insatisfação dos consumidores.
Com o Congresso inerte e as empresas resistentes a mudanças, resta saber até quando o mercado conseguirá manter esse modelo sem colapsar.
Imagem: Freepik
